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08 março 2010

dia 08 de março, 2010

À mulher da minha vida, se eu fosse uma Deusa, oferecia uma Flor...

Uma Flor, que dela extraía a frescura das gotas de orvalho para a manter jovem a vida toda, se eu fosse...
Uma Flor, que nela buscava a beleza para ti, até aos fins da eternidade, se eu fosse...
Uma Flor, da flor a sua fragilidade, para que, por todos, fosses sempre mimada e cuidada, se eu fosse...
Uma Flor, da flor o perfume para te encontrar em qualquer lado, se eu fosse...
Uma Flor! ... Para ver sempre o sorriso na tua cara.

***

Não sou nenhuma Deusa, não passo de mais uma simples mortal inconsequente. Mas há sempre alguma coisa acessível à nossa mão e aqui está, em baixo, uma flor para as mulheres das nossas vidas, porque quer sejamos homens ou mulheres, todos temos mulheres nas nossas vidas. Eu tenho uma maravilhosa!


16 dezembro 2009

Luísa

        Há momentos em que apetece correr... assim de repente, do nada - a olhos alheios a tudo -, sair porta fora e correr, correr, correr até ficar com os bofes de fora ou até chegar lá à frente.
         Luísa era uma mulher de forças, de armas, inconstantemente satisfeita, dona do seu nariz. Não tinha marido nem filhos, os pais ocupavam-lhe a cabeça o tempo todo que não o passava a trabalhar.
        Todavia até o maior guerreiro perde as forças e também ela desejava chegar à sua cama, à noite, depois da noite porque assim que o relógio de sala toca as 12 badaladas ela tem consciência que são 24horas passadas de mais um dia de dramas, respira fundo e deixa sair num tom mudo: "- meia-noite...".
 

  Tiiii....Tiiiii...Tiiiii...  -  07h:30min...


        Mais um dia interminável depois de uma noite tão curta... "Estamos no inverno, é suposto as noites serem maiores que os dias...", disse ainda meio ensonada, meio resingona, meio acordada...
        Levantou-se, tomou banho, preparou o seu pequeno-almoço, o lanche para meio da manhã e saiu; a rotina do costume, as batalhas do dia-a-dia, os suspiros, as lágrimas contidas, cama.
       Luísa quer muito a sua casa, o seu canto incontestável, os seus  filhos, os seus momentos a sós. O tempo vai passando entre guerras e tréguas com o tempo e com o mundo na esperança de um dia acordar noutra cama, noutra casa, com alguém a seu lado, e um pequeno-almoço servido na cama de tempos a tempos...
     Corre, Luísa corre, explode no vento, bem longe de tudo, esse sentimento de raiva e ódio e cansaço, entrega-te! E manda o tempo dar uma curva com todas as suas tretas!

02 dezembro 2009

BALCÕES DE LINGERIE

Lorena.
Lo-re-na... que mulher!!!
Lorena era uma mulher na casa dos seus vinte anos ainda, muito nova, muito doce, muito bela, muito sedutora; sabia aquilo que queria. Cabelo preto, comprido, de madeixas cor de ameixa soltas ao vento, uma pele de uma tez branca como a neve, olhos amendoados de um castanho escuro - quase negros, uma boca rosada, de lábios entreabertos, no limiar de se tocarem, um corpo que dança ao andar.

A primeira vez que entrara numa loja de lingerie, ria-se agora ao lembrar, ía tímida e expactante de descobrir algo de excepcional, tanto que merecesse o rótulo dos bombons preferidos da sua lista: ferrero rocher, aqueles bombons franceses que se derretiam na boca dela... "Algo excepcionalmente bom!"
Lorena procurava uma lingerie ousada mas sofisticada, "- O que tem?"; o nome da marca ficou-lhe no ouvido e a certeza de que era aquilo quando tocou no tecido daquele corpete.
Havia cumplicidade no ar entre ela e a vendedora. Mês após mês lá ela dava um salto à loja para ver as novidades; e nisto passaram-se três anos em compras sucessivas da dita marca que a seduzia e que lhe deixava o namorado aos pés.

Um belo dia, em "conversas de mulheres", Lorena contou a uma amiga a lingerie que usava para ocasiões especiais plantando-lhe uma semente pequenina de curiosidade. Francisca, a amiga, pediu-lhe se era possível ter em mãos um catálogo da colecção seguinte; daí em diante tornaram-se confidentes de pormenores rendados!

Mais tarde, no entanto, Francisca não tinha hipótese de se dirigir à loja para ver as novidades de uma outra marca (que faz o maior esforço para se manter no pódio já que, só o nome, ainda a mantém), e pediu a Lorena uma ajuda.
Lorena dirirgiu-se à loja e pediu a gentileza de levar alguns artigos para a sua amiga experimentar mas não tinha a certeza dos tamanhos dela, pediu que levasse em dois tons - preto e vermelho - e em dois números diferentes também. Tal pedido levantou uma série de problemas e dificuldades quanto ao tempo de ausência dos produtos. Lorena sentiu-se indignada e ofendida; agravou o seu tom de voz, perguntou uma última vez se era possível ou não aceder ao seu pedido, a empregada disse que sim embora contrariada e Lorena saiu da loja olhando para a montra.

Porquê? Por ironia.
Eu explico: a senhora que a atendeu é daquele género de mulheres recatadas, cheias de preconceitos, definindo lingerie em cuecas e soutiens o maior possível, o mais básico, nas cores branco, champanhe e preto! Vermelho é cor do pecado, rendas nem pensar! Quando ela olhou para a montra não esperava ver outra coisa senão aquilo que realmente viu: pijamas com bonecos, adoráveis coelhinhos estampados em algodão!

Mulheres destas não têm coragem, sequer, de olhar para uma lingerie arrojada, de rendas, strings abertas em baixo, arcos de soutiens sem a copa, mostrando os mamilos dos seios das mulheres, corpetes acetinados ou com rendas, cintos de ligas, acessórios... no entanto nem um pingo há de vergonha quando olham de lado, quando julgam, quando criam intrigas entre a e b. "Isto é para putas!!!!", dirão!, diriam, se pudessem, em voz alta e em bom tom de se ouvir ao longe! Preferem a má língua, as intrigas do que a sedução, o amor, a paixão, o sexo! Sexo?!: ele por cima, ela por baixo; ele manda, ela faz mas desde que não sejam fellatios e nunca exprimentaram cunillingus. Não admira que depois se saiba o que se sabe...

Os tempos não mudam assim tanto; o que precisam é de livros!!

No dia seguinte, Lorena devolveu os artigos e esperou que a sua vendedora regressasse de férias para então resolver os seus quês e porquês quanto à lingerie e às escolhas da sua amiga.




Não se pode ter qualquer pessoa à frente de um balcão, seja ele de que tipo for, principalmente se se tratar de um balcão de lingerie; as vendedoras têm de estar conscientes que podem estar a atender a senhora mais requintada ou a mais reles, a dama ou a rameira, a menina, a adolescente, a esposa, a amante mas não deixam de ser mulheres! Se não são capazes de perceber isso por vocês mesmos procurem formação de atendimento ao público específico!

18 novembro 2009

Maria Teresa

Maria Teresa era uma rapariguinha como tantas outras mas ruiva. Ruiva, sardenta, e um sorriso de orelha a orelha.
Mas Maria Teresa, Teresinha para a mamã, tinha qualquer coisa além daquela particular figura; algo nela causava a qualquer pessoa  uma irritabilidade única quando a via, ou, na melhor das hipóteses, um ar de compaixão eterna. Aquele jeito dela desajeitado, o riso esganiçado, a pele quase cor-de-laranja, a fatiota sempre completa de xadrez e riscas verticais ou horizontais, consoante os dias, camisinha bem engomada, o casaco de lã feito pela avó, o perfume a flores delicadas... causava verdadeiras náuseas, mas pronto!
Teresinha até era engraçada... à noite! Quando a mamã, depois do jantar, a ia deitar com uma trança bem grossa, bem ruiva, de cada lado da cara arredondada, e dizia-lhe:
"- Boa noite Teresinha!"
"- Boa noite mamã."
"- A mamã gosta muito de ti, e o papá, e a avó, e o avô..."
"- Eu também gosto muito de todos vocês; dá-lhes outro beijinho meu quando fores para a sala ver a televisão."
"-Eu dou minha querida." disse a mãe com um beijo demorado na testa da menina, apagou a luz e saiu.

Teresinha acreditava que conseguia tocar nas estrelas enquanto se aninhava nos seus lençóis de flanela com os seus bonecos desenhados... e dizia-o a toda a gente. Claro está que, todos os outros meninos, ora gozavam com ela, ora se riam da patetice; mas a menina, apesar do desdém dos amiguinhos, sorria e continuava caminho, colhia flores a caminho de casa, e dava-as à avozinha que tinha o lanche preferido dela à sua espera, delicioso como sempre: croissants bem quentinhos, acabados de fazer, com pepitas de chocolate aqui e ali, a compota de frutos silvestres com um toque do licor preferido do avô, e o seu grande copo de leite.

Maria Teresa era feliz assim, não lhe importava aquilo que era por fora, embora gostasse das suas tranças ruivas e das suas sardas porque a tornavam diferente dos amiguinhos; a "vó" sempre lhe disse "- És uma menina linda, única, especial. As tuas tranças assim ruivas, e as tuas sardas fazem de ti alguém que mais ninguém consegue ser, e ter um dom que mais ninguém consegue alcançar. Teresinha, gosta de ti, sempre!..." Na casa dos avós havia uma lagoazinha com muitas flores em torno de si, onde os passarinhos chilreavam muito e as borboletas pairavam em todo o lado. Adorava ir até lá, deitar-se entre as ervas, respirar aquele ar de polén... no dia em que uma borboleta pousou na ponta arredondada do seu nariz, Teresinha sorriu, e achou que a avó tinha razão, e que nada nunca lhe faria tanta falta como as estrelas no céu e os avós por perto.
Se era diferente, melhor!

03 novembro 2009

DIA APÓS DIA

Amélia! Oh minha querida...

Amélia é uma apaixonada, uma romântica, uma sonhadora.

Todo o santo dia Amélia dirige-se ao computador, dá uma espreitadela na net, volta a fechar as janelas, desliga o computador. Dia após dia é um ritual que não se altera seja pelo que for.

Sem grandes espectativas, sem grandes esperanças, ou mesmo bem disfarçadas, dá um sorriso à falta de novidades na sua caixa postal online, no HI5MSN...

Levanta-se, vai dar uma volta.

Dia após dia sempre a mesma rotina a horas.

24 setembro 2009

Amélia acorreu à praia.
Descalçou os sapatos na areia molhada, correu directo à água gelada do mar, neste princípio de Outono, dobrou os joelhos... caiu!

Chorava...

Naqueles momentos em que esteve ali, literalmente sozinha, chorou a solidão que sente quando está acompanhada por quem não a conhece nem o tenciona fazer sequer...

Quando levantou a cabeça olhou para o firmamento, aquela linha fina que quase não mostra a divisão entre o mar e o céu, levou as mãos em concha com um pouco da água salgada pela face... fungou... passou novamente as mãos na cara, respirou fundo, levantou-se.

Ainda andou por ali uma quantidade boa de horas...
para trás, para a frente, enterrando os pés na areia, arrastando-os, delineando caminho atrás de si...

Sentou-se na areia mais acima, seca, solta pelo vento... e quando o seu cabelo fino começou a levantar e a baloiçar com os grãos de areia também... sorriu!

Sentiu o aroma que o vento acarta consigo vir de encontro à sua cara marcada pelas lágrimas que vertera até áquele momento e foi-se embora.

Nada daquilo valia a pena, achou-se uma tola e foi para casa sorrindo da idiotice que lhe tomara a alma momentos antes.